Transformação em movimento.
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Miriam Augusto

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Ana Fortunato: Entre sabores, ilustrações e poesia

Ana Fortunato: Entre sabores, ilustrações e poesia

Conheci a Ana Fortunato em 2009, em Liubliana, na Eslovénia. Desde então, mantivemos sempre o contacto, primeiro de forma espaçada, até que, em 2019, nos voltámos a cruzar em Bali. Foi aí que a nossa ligação ganhou nova vida e profundidade. Desde então, falamos praticamente todos os dias.

A Ana Fortunato é uma das minhas melhores amigas. É um refúgio de compreensão e empatia, uma presença serena e madura, mas também divertida, doce e acolhedora. Quando algo me acontece, ou quando preciso de pensar em voz alta, é uma das primeiras pessoas, muitas vezes a única, a quem recorro. E mesmo que a resposta demore, ela chega sempre: ponderada, presente, atenta.

A Ana é como eu: gosta do seu espaço e do seu tempo, nutre-se intelectualmente, valoriza o silêncio e o auto-cuidado. É uma cozinheira de mãos e alma, uma artista sensível e uma pensadora inquieta. Podia escrever sem fim sobre ela. Mas mais do que falar sobre quem ela é, quero falar sobre o que sinto por ela, e isso traduz-se numa só palavra: amor.

No entanto, não posso falar da Ana sem falar da Aurora. A sua companheira de quatro patas, inseparável e absolutamente adorável, a quem carinhosamente chamo de “sobrinha”. Uma tontinha amorosa, cheia de mimo, que nos enche o coração com a sua presença, ternura e “tonteria”.

Deixo aqui esta entrevista como homenagem a uma grande amiga e mulher inspiradora, e também à Aurora, com quem tenho o privilégio de partilhar a vida.

Hoje, a voz que se ouve é de Ana Fortunato!

O que te levou a fazer a transição da Engenharia Alimentar para o mundo da culinária e, mais tarde, para a arte?

Penso que a transição se deu de uma forma natural, movida pela curiosidade e pela vontade de me expressar de uma forma mais criativa. De certa forma, a arte sempre esteve presente na minha vida, mesmo que eu não o tivesse percebido de imediato. A sociedade influenciou-me um pouco de forma negativa a valorizar mais os números, a lógica e a segurança que eles pareciam oferecer, e por isso segui o caminho da Engenharia, que estava ligado a essa ideia de futuro estável. As letras, os pincéis e a criatividade eram vistos como algo mais incerto ou menos valorizado. No entanto, a Engenharia Alimentar deu-me uma base sólida em ciência, rigor e conhecimento técnico sobre os alimentos. Com o tempo, percebi que sentia falta de um lado mais sensorial e emocional ligado à alimentação. Foi aí que surgiu o interesse pela culinária, como uma forma de transformar conhecimento em experiências.

Com o aprofundar dessa relação, comecei a perceber que o que mais me fascinava era a criação, a estética e as narrativas visuais. E isso levou-me ao mundo da arte, onde pude explorar a expressão de ideias de forma mais livre e pessoal. No fundo, embora diferentes, estas áreas têm pontos de contacto, todas lidam com processos, com transformação, e com a comunicação, seja através do sabor, da técnica ou da imagem, provocando diferentes sensações.

Ana Fortunado e a sua cadela Aurora, uma figura central na sua vida.

Como é que essas mudanças se entrelaçam na tua vida pessoal e profissional?

Essas mudanças acabaram por se entrelaçar de forma muito orgânica, porque nunca vi uma separação rígida entre o que sou pessoalmente e o que faço profissionalmente. Cada transição foi acompanhada de uma transformação interna, de valores, interesses e formas de ver o mundo. Na engenharia alimentar desenvolvi um olhar técnico e metódico; na culinária, aprendi a trabalhar com os sentidos, com o tempo e com o gesto; e na arte, encontrei espaço para refletir, questionar e expressar.

Hoje, essas dimensões coexistem, aplico o rigor científico com a sensibilidade artística, a disciplina com a liberdade criativa. E isso não só enriquece o meu trabalho, como também me ajuda a viver de forma mais coerente com quem sou.

Como foi o processo de te tornares vegetariana, e de que forma essa decisão moldou a tua visão sobre alimentação, saúde e criatividade?

Tornar-me vegetariana foi um processo gradual, movido por uma crescente consciência ética, ambiental e também pelo cuidado com a minha saúde. Começou com pequenas escolhas e foi-se tornando uma forma de estar, mais alinhada com os meus valores e com aquilo que quero cultivar no meu dia-a-dia.

Essa mudança transformou completamente a minha visão sobre a alimentação. Passei a encará-la não apenas como nutrição, mas como um espaço de descoberta: explorar novos ingredientes, aprender a conjugá-los de formas inesperadas, e quase como numa alquimia, criar sabores, texturas e cores que surpreendem. Isso despertou ainda mais a minha criatividade, tanto na cozinha como noutras áreas da minha vida, e reforçou a ideia de que a alimentação pode ser um acto consciente, sensível e profundamente criativo.

Durante os teus estudos em Alimentação Macrobiótica e Raw Food, que aprendizagens mais te marcaram e como influenciaram a tua abordagem holística à vida?

Durante os estudos em Alimentação Macrobiótica e em Raw Food, especialmente na experiência transformadora que vivi em Bali, fui muito além do conhecimento técnico. O que mais me marcou foi a consciência profunda de que tudo está conectado: o que comemos, o que pensamos, o que sentimos. A forma como nos alimentamos é, muitas vezes, um reflexo da forma como nos relacionamos connosco e com o mundo. Em Bali, não só aprendi sobre ingredientes crus ou combinações nutricionais, mas aprendi com as pessoas, com os ritmos da natureza, com a simplicidade do dia-a-dia. Aquela vivência despertou em mim uma escuta mais subtil, percebi que alimentar o corpo é também alimentar a alma, e que cada escolha pode ser um acto de presença, equilíbrio e respeito.

Essas aprendizagens moldaram a minha visão holística da vida. Hoje, vejo a alimentação como um canal de cura, de expressão e de ligação com algo maior, connosco mesmos, com os outros e com o planeta.

A cadela Aurora tem sido uma companheira inseparável da Ana Fortunato sendo, inclusivamente, uma fonte de inspiração.

Há uns anos não te vias a viver fora de Portugal. Entretanto, deixaste tudo e foste morar para a República Checa. Como tem sido viver em Praga e que impacto tem tido esta cidade na tua sensibilidade artística e na tua expressão criativa?

Quando pensei na possibilidade de viver fora de Portugal, nunca imaginei que me mudaria para Praga. Esta experiência tem sido, ao mesmo tempo, desafiante e profundamente enriquecedora. Praga é uma cidade carregada de história, arte e uma energia muito própria que me inspira constantemente. Viver aqui abriu-me novos horizontes e sensibilidades. A mistura do antigo com o contemporâneo, a arquitectura, os espaços culturais e as pessoas que aqui conheci têm alimentado a minha expressão artística de formas inesperadas. Sinto que a cidade me desafia a olhar para o mundo com um olhar mais atento e a explorar novas linguagens criativas, tornando o meu trabalho mais rico e plural.

No fundo, esta experiência tem sido uma verdadeira jornada de crescimento, onde aprendi a valorizar ainda mais as minhas raízes ao mesmo tempo que abraço o novo. A convivência com a saudade e as diferenças culturais transformou-se numa fonte constante de inspiração, que me desafia a olhar para o mundo e para a minha arte de forma mais aberta e profunda.

A tua cadela Aurora é uma figura central na tua vida. De que forma é que ela tem inspirado e influenciado os teus projetos criativos?

A Aurora é, sem dúvida, uma presença fundamental na minha vida. Para além de companheira inseparável, ela tem sido uma fonte constante de inspiração e serenidade, ajudando-me a encontrar equilíbrio nos meus processos criativos. A sua forma genuína de estar no mundo, a simplicidade, a alegria espontânea e a lealdade, ensinam-me muito sobre atenção plena e autenticidade. Além disso, através dela, conheci muitas pessoas que também partilham essa conexão especial com os animais, o que abriu portas para novas amizades e redes de apoio que enriquecem a minha visão e os meus projectos. Nos meus trabalhos, encontro na Aurora metáforas para a criatividade: a importância de estar presente, de explorar o mundo com curiosidade e sem julgamentos, e de valorizar os pequenos detalhes que, muitas vezes, passam despercebidos.

O que motivou o nascimento do projeto Aurora Illustration e de que forma é que ele reflete a tua identidade artística e emocional?

O projecto ‘Aurora Illustration‘ nasceu da necessidade de expressar uma parte muito íntima da minha identidade, tanto emocional como artística. Inspirada pela minha cadela Aurora, quis criar algo que fosse ao mesmo tempo uma homenagem à sua presença única e uma forma de traduzir sentimentos que, muitas vezes, são difíceis de pôr em palavras. Este projecto reflete a minha abordagem sensível e detalhista à arte, onde cada traço e cor procura transmitir emoções e histórias pessoais. É também um espaço onde consigo explorar a minha criatividade de forma livre, alinhando técnicas e estilos que me representam. É um espaço onde posso dar forma às minhas emoções e explorar a minha criatividade sem limites.

Que papel tem a poesia na tua vida e como se liga ao teu trabalho visual? Costumas fundir texto e imagem nas tuas criações?

A poesia, a arte das palavras, é para mim uma forma poderosa de nos sentirmos compreendidos. Gosto muito da frase de José Saramago: ‘A escrita é a pintura da voz’, uma ideia que traduz perfeitamente como a poesia transforma o invisível em algo visível, dando cor, forma e vida às emoções e pensamentos que muitas vezes permanecem silenciosos. No meu trabalho visual, a poesia funciona como uma ponte entre esses dois mundos. As imagens que crio procuram traduzir visualmente aquilo que a poesia consegue expressar em palavras, sentimentos complexos, estados de alma e momentos de introspecção.

O que gostarias de transmitir a outras pessoas que estão a procurar reinventar-se e explorar novas direções nas suas vidas, com base na tua própria jornada de transformação?

Reinventar-se é um acto de coragem e de amor próprio. A minha jornada de transformação ensinou-me que, apesar do medo e da incerteza, seguir novas direções pode abrir portas que nunca imaginámos. É fundamental ouvir o que o nosso coração realmente deseja e dar espaço para a curiosidade e para a criatividade florescerem.

A mudança nem sempre é fácil, mas é nela que encontramos crescimento e autenticidade. Acredito que cada passo, por mais pequeno que seja, nos aproxima de uma versão mais verdadeira de nós mesmos. Por isso, encorajo quem está a pensar em explorar novos caminhos a abraçar o desconhecido com confiança e a não ter medo de errar, porque é nesse processo que reside a verdadeira arte, a arte de viver.

Acredito que a verdadeira transformação não tem bilhete de regresso. Viajei o mundo e atravessei tempestades internas: depressões, burnout, mudanças de direção, despedidas de projetos. Em cada um desses momentos, a viagem foi o meu espelho, o meu guia e a minha medicina. Criei agências, vendi sonhos, vivi em Bali, surfei as minhas sombras e reencontrei a minha voz. Hoje, guio experiências de regresso à tua essência através da astrologia, da mentoria e de viagens que, mais do que mostrarem o mundo, te ajudam a veres-te a ti.