A perda de alguém que nos é querido é um silêncio que ecoa no tempo. É uma ausência que se entranha nos dias mais comuns.
Miriam Augusto
No dia 19 de Outubro de 2024, acordei com a devastadora notícia do falecimento da minha amiga Giulia Manfrini. Enquanto fazia uma das coisas que mais amava, surfar, a Giulia sofreu um acidente no nosso país de coração, a Indonésia.
No próximo dia 11 de Agosto, se a Giulia ainda estivesse entre nós, faria 37 anos. A verdade é que, passados nove meses, a sua ausência continua a doer.
A morte da Giulia repercutiu-se pela comunidade surfista mundial. Foram vários os jornais internacionais que noticiaram o seu desaparecimento. O paddle-out* teve lugar nas Mentawai, em Bali e no Algarve, três lugares que marcaram a sua história.
Ainda hoje me questiono se ela teria noção do impacto que tinha no mundo, nas pessoas com quem se cruzava. Muitas vezes, quando estou nos meus momentos mais sombrios, é nela que penso, é nela que busco inspiração. E, mesmo passado este tempo todo, ainda me emociono profundamente.
Será que ela sabia o quanto gostava dela? Apesar de nos tratarmos por bella, love, babe… será que ela sentia verdadeiramente?
Foi ao ler o mapa astral da Giulia que obtive o meu certificado de astrologia. Assim que lhe propus a leitura, não hesitou um segundo em dizer que sim. Ela em Itália, eu em Portugal e uma chamada via Zoom gravada, para a minha professora avaliar. Generosa, disponível, como sempre.

No dia em que conheci a Giulia tirei-lhe esta fotografia ♡
No meio da dor, ficam as memórias dos momentos incríveis que partilhámos em Bali: as águas de coco e as bintangs ao pôr-do-sol na praia, os almoços e jantares nas nossas casas e pelos cafés e restaurantes da ilha, as danças nas festas de reggae ou nos concertos dos Modjorido, as noites de FamJam onde tanto nos divertíamos, os convívios com a Berawa Crew, as manhãs de spa, porque só arranjávamos as unhas uma vez por ano, e tinha de ser em Bali…
E, claro, as conversas sobre homens, onde tantas vezes me dizia:
There’s a lot of fish in the sea…
Ao que eu respondia:
But I’m fixed on that salmon that has commitment problems.
E ríamos as duas à gargalhada.
A Giulia foi uma das últimas pessoas de quem me despedi antes de regressar a Portugal, em Julho de 2023. Enquanto almoçávamos, disse-me que compreendia perfeitamente porque é que eu estava a deixar a ilha e que, em breve, faria o mesmo. Nesse mesmo ano, comprou uma casa em Lagos, no Algarve, onde passou a viver desde então. Portugal tinha-se tornado o seu lugar de eleição para passar o inverno. Era precisamente a Lagos que eu a iria visitar assim que regressasse da sua viagem à Indonésia. Uma viagem que se tornaria fatal.
Desde então, perdi a oportunidade de a visitar, de a ver, de a abraçar, de ouvir o seu inglês com sotaque italiano ou de partilhar das suas risadas contagiantes. Perdi também a oportunidade de regressar a Bali e poder marcar um almoço ou jantar que ela tanto fazia questão de partilhar comigo.
Ainda hoje, não consigo apagar as nossas conversas no WhatsApp. Não consigo eliminar o número dela, deixar de a seguir no Instagram ou apagar o seu email que, curiosamente, continua a surgir na lista de aberturas das minhas newsletters. É como se, de alguma forma, ela ainda estivesse presente. E talvez esteja.
No meio desta dor, há algo que me conforta: a entrevista que fiz à Giulia e que publiquei três semanas antes do seu falecimento no meu blog, então chamado Her Voice, Your Journey. Agora, podes ler essa entrevista aqui, neste mesmo blog. Ela aceitou o desafio com o entusiasmo e a dedicação que punha em tudo o que fazia.
Quando voltar a Bali, a saudade vai apertar ainda mais. Talvez, quem sabe, se atenue num abraço com alguém do nosso grupo.
Quando perdemos alguém
A perda de alguém que nos é querido é um silêncio que ecoa no tempo. É uma ausência que se entranha nos dias mais comuns. Num café, numa canção, numa frase dita por alguém. É também uma presença que persiste, nos gestos, nas memórias, nos espaços que partilhámos. E, por mais que o tempo passe, não há um fim claro para o luto. Ele transforma-se, amacia com os dias, mas nunca desaparece por completo.
A dor da perda é uma linguagem que muitos de nós conhecem, ainda que, por vezes, falem dela em silêncio. E mesmo que o mundo continue a girar, há espaço para parar, sentir e honrar quem partiu.
Reforcei, com a partida da Giulia, que é urgente dizer ao outro que gostamos dele. Não mais tarde. Não quando for conveniente. Agora. Hoje. Que é importante estar presente. Num abraço, numa mensagem, num olhar. Porque, no fim, o que fica são os laços que criámos e o amor que soubemos dar.
E confesso-te: quando partilhei a entrevista com a Giulia, poucas pessoas a leram, não mais de dez. Mas, quando o mundo soube do seu falecimeto, essa mesma página teve quase 500 visualizações. Isso revoltou-me. Porque parece que é preciso uma tragédia para se dar atenção, para se valorizar alguém, para se parar. Foi preciso a perda de uma vida para despertar curiosidade.
Gostava que essa curiosidade pelo outro, esse impulso de saber mais, de expressar o que sentimos, fosse vivido no dia-a-dia, enquanto o outro ainda cá está. Enquanto pode sentir-se visto, reconhecido, apreciado. Talvez não consigamos mudar o mundo inteiro, mas podemos começar, a nível individual, por ser esse gesto. Hoje. Agora.
E, no meio de tudo isto, fica uma pergunta simples mas essencial:
Já disseste a alguém o quanto o aprecias, admiras ou amas hoje?
……….
* Uma “paddle-out” é o nome dado a uma cerimónia de homenagem na água, em que surfistas se reúnem para honrar um membro falecido da comunidade do surf. Esta cerimónia consiste em remar para além da rebentação e formar um círculo sobre as pranchas de surf, muitas vezes com flores ou colares havaianos (leis), partilhando memórias e palavras em honra da pessoa que partiu.


