Serenela Dinis: Do silêncio aprendido à coragem de existir
Conheci a Serenela Dinis há alguns anos, num contexto improvável: no suporte de uma operadora nacional. Não nos tornámos amigas próximas, mas também nunca nos perdemos. Foi sempre um contacto discreto, desses que não precisam de constância para permanecer.
O suficiente para eu a ver como muitos a veem: energética, alegre, carismática. Uma mulher que aparenta ocupar o espaço com leveza e naturalidade.
O que não se vê de imediato, e que só se revela quando há espaço para escutar, é a menina insegura que vive dentro dela. Aquela que aprendeu cedo a ajustar-se, a não incomodar, a não ocupar demasiado espaço. Aquela que se autossabota, mesmo quando tudo parece estar bem por fora.
Esta entrevista não é sobre fotografia, embora a fotografia atravesse toda a sua história. É sobre invisibilidade aprendida. Sobre identidade. Sobre corpo. Sobre a dor de viver desconectada de si mesma e o caminho, nada romântico, de regresso à verdade.
A fotografia, para a Serenela Dinis, não foi só arte, foi resgate.
Hoje, a voz que se ouve é de Serenela Dinis!
A fotografia surge na tua vida como um resgate. O que é que fotografar te permite sentir ou expressar o que antes não conseguias?

A fotografia foi o lugar onde a Serenela Dinis começou a existir sem pedir licença.
A fotografia deu-me um sítio onde podia existir em silêncio. Onde não precisava de explicar nada a ninguém. Antes eu sentia tudo muito intensamente, mas guardava tudo cá dentro, sem espaço nem linguagem para expressar. Fotografar permitiu-me sentir sem pedir licença e mostrar sem ter de falar alto. Foi, literalmente, um resgate, tal como a dança.
Percebi cedo que tinha um olhar fotográfico que ia além do físico. Um olhar que lia a alma das pessoas que fotografava. E, ao fazê-lo, comecei também a empoderar outras pessoas. A mostrar-lhes partes delas que nem sempre conseguiam ver sozinhas. A fotografia trouxe-me alegrias, prazer, concretização, sorrisos, amor. E isso vale tudo. Deu-me também uma forma de expressão criativa que, em certos momentos da vida, é absolutamente essencial para mim.
Como descreverias a mulher que eras antes de te encontrares através da fotografia?
Antes da fotografia, eu era aquela pessoa que está sempre atenta aos outros e quase nunca a si própria. Adaptava-me muito, queria ser aceite, fazer tudo “bem”, não falhar, não incomodar. Havia muita sensibilidade em mim, mas eu não me ocupava verdadeiramente de mim. Esperava que alguém me “curasse” ou me desse a “solução” para a minha dor.
A fotografia ajudou-me a aparecer. Primeiro para os outros, através do meu olhar. E só mais tarde percebi que, nesse processo, também comecei a aparecer para mim. A reconhecer-me. A dar-me espaço.
Quando olhas para trás, o que sentes que mais te marcou na infância e adolescência em relação à tua autoimagem e à forma como vivias para agradar aos outros?
A sensação constante de que precisava de agradar para ser querida. Aprendi cedo a ler ambientes, a ajustar-me, a não ocupar demasiado espaço. Isso teve um impacto profundo na forma como via o meu corpo, a minha identidade e o meu valor.
Cresci num contexto familiar emocionalmente ausente. O meu crescimento foi conturbado e aprendi a conquistar o amor dos outros sem saber, verdadeiramente, o que era dar amor a mim própria. Cresci na escassez emocional e numa sensação de vitimização que não escolhi conscientemente, mas que se instalou.
Demorei muito tempo (e ainda demoro) a sentir que podia simplesmente ser, sem ter de merecer, justificar ou compensar.
Aprendi cedo a ler ambientes, a ajustar-me, a não ocupar demasiado espaço. Isso teve um impacto profundo na forma como via o meu corpo, a minha identidade e o meu valor.
Em que momento percebeste que era possível dizer “sim” a ti mesma e começar a viver a tua verdade, apesar dos medos ou do julgamento social?
Quando me cansei de me deixar para depois. Quando começou a doer fisicamente. Quando não parava de chorar. Quando fui traída. Não foi um momento épico nem bonito. Foi um “já não aguento continuar assim”.
Percebi que viver a minha verdade ia dar medo, mas viver sem ela estava a doer muito mais. Dizer “sim” a nós mesmos implica dor. Implica olhar para as emoções tal como olhamos para um rio: ele simplesmente vai. Não se controla, não se interrompe. Aprende-se a atravessá-lo.
A tua orientação sexual num contexto social por vezes hostil traz desafios. Como isso moldou a tua visão de liberdade e autenticidade?
Para mim, sempre foi natural. Nunca me questionei nem me julguei por ser quem sou. Quero lá saber o que está no meio das pernas das pessoas por quem me sinto atraída. Contar aos meus pais foi natural para mim, apesar de eles terem as suas próprias dificuldades e traumas com relações amorosas.
Com os meus avós foi diferente, mas mesmo assim sempre me senti tranquila, porque sentia que estávamos a olhar para o futuro. Hoje, infelizmente, sinto que muitas pessoas só olham para o seu umbigo e que há uma tentativa de voltar para trás. E isso não é liberdade.
Um momento marcante foi perceber que havia julgamento numa amizade próxima. Aí percebi, de forma muito clara, que liberdade anda de mãos dadas com empatia. Já não tolero a frase “ah, mas eu tenho liberdade de expressão”, porque essa liberdade termina onde começa a dignidade do outro.
Crescer num mundo que nem sempre é seguro ensinou-me que ser livre não é não ter medo, é não deixar que o medo mande em mim. Amar quem amo obrigou-me a ser honesta comigo. Tornou-me mais inteira. E foi essa necessidade de inteireza e de olhar para mulheres de uma forma amorosa que acabou por resgatar o meu nicho na fotografia. Quem melhor para empoderar uma mulher do que… outra mulher que já se autossabotou (e ainda se autossabota) e que gosta de mulheres? (risos)
(…) ser livre não é não ter medo, é não deixar que o medo mande em mim.
Fotografar mulheres grávidas, casais e retratos é para ti uma forma de empoderamento. Como vês o impacto do teu trabalho na vida das pessoas que fotografas?
É criar um espaço seguro. Um espaço onde só o amor permanece e onde a crítica não entra. Um espaço onde as pessoas se veem com mais carinho ou de uma forma que nunca se tinham visto.
Muitas mulheres dizem-me que nunca se tinham visto assim. E isso toca-me profundamente, porque sei o quanto isso pode mudar tudo por dentro. É algo que me enche mesmo o coração.
Quais foram os maiores obstáculos internos que precisaste de superar para encontrares confiança em ti mesma e na tua arte?

A fotografia deu à Serenela Dinis um sítio onde podia existir em silêncio, sem precisar de se explicar.
Aquela voz interna chata que diz que não é suficiente. O medo de falhar. O medo de não ser boa o suficiente. Aprender a confiar no meu olhar foi um processo longo.
Hoje sei que a minha sensibilidade é uma força, não um defeito. Mas também aprendi que esses medos provavelmente nunca vão desaparecer por completo. O que precisa de mudar é a lente com que olho para eles.
Se pudesses dar um conselho à mulher que se sente invisível ou sem voz, tal como tu já te sentiste, o que lhe dirias?
Que ela não está partida. Só ainda não se deu o espaço que merece. Que comece devagar, a ouvir-se. Não precisa de ser outra pessoa, só precisa de ser verdadeira consigo.
E sim, diria também: faz terapia. Costumo dizer que me sinto como uma cebola a ser “descascada”. E o que acontece à cebola? Ela oxida. Essa oxidação é a dor de olhar para as nossas sombras. Mas são precisamente essas sombras, essa invisibilidade, que permitem o processo de cura.
A cura dura uma vida inteira, tal como a educação. Estamos sempre a aprender. É um processo vulnerável, muitas vezes doloroso e solitário. Mas quando começamos a aprender pequenas ferramentas e temos certos “eurekas”, tudo começa a fluir de outra forma.
Olhando para o futuro, quais são os teus sonhos e projetos para a fotografia e para ti enquanto mulher que escolheu seguir a sua verdade?
Quero continuar a fotografar com alma. Criar imagens que sejam casa para quem as vê. Talvez misturar ainda mais a fotografia com processos de cura. E, acima de tudo, viver com mais leveza e com menos medo de ser quem sou.


