Transformação em movimento.
Através da astrologia, da mentoria e de viagens imersivas, guio pessoas em transição a encontrarem clareza, verdade e presença.
Não para fugirem do mundo, mas para se voltarem a ouvir dentro dele.

Junta-te ao Movimento

Miriam Augusto

  /  Entrevista   /  Susana Ribeiro: A jornalista que se tornou líder de viagens
Susana Ribeiro de jornalista a líder de viagens

Susana Ribeiro: A jornalista que se tornou líder de viagens

Não sei ao certo quando conheci a Susana Ribeiro, talvez em 2014, mas lembro-me que foi através do mundo das viagens. Desde então, mantivemos sempre o contacto e até partilhámos aventuras, como uma viagem de duas semanas pela Malásia. A Susana é daquelas pessoas que têm sempre o telemóvel na mão, não por vício, mas porque sente a responsabilidade de partilhar cada momento com quem a lê. Quer inspirar, quer mostrar que é possível viver viagens cheias, completas, onde nada falta.

Mas a Susana é muito mais do que uma viajante incansável. É uma mulher de coragem e de “sete ofícios”, que não teve medo de largar o jornalismo para criar um caminho próprio. Reinventou-se como blogger, líder de viagens, produtora de conteúdos, gestora de redes sociais, podcaster, escritora e consultora. A sua força está em não ficar apenas pelas ideias: concretiza-as, com resiliência e criatividade, mesmo quando o caminho é duro.

É esse lado empreendedor que mais admiro nela. A Susana mostra que viajar não é só fazer quilómetros; é também acreditar em nós próprias, dar o salto e criar a vida que queremos viver. O seu percurso é prova de que é possível transformar sonhos em projetos, e projetos em realidade. E, nesse processo, inspira não só a viajar, mas também a arriscar, a lançar-se e a construir algo seu.

Hoje, a voz que se ouve é de Susana Ribeiro!

Vieste do jornalismo, uma área onde estiveste mais de duas décadas, mas tiveste de pô-lo parcialmente de lado para abraçar o “Viaje Comigo” e, com ele, uma nova forma de trabalhar, feita de patrocínios, produção de conteúdos, redes sociais e empreendedorismo. Como viveste essa transição? Custou-te largar o jornalismo mais “clássico”? E o que te fez arriscar?

A mudança custa sempre um pouco, não é? Não vou dizer que foi fácil, mas olhando para trás, vejo como foi um processo nada planeado e que se foi construindo naturalmente e aos poucos. Cada vez escrevia mais sobre turismo nas revistas e jornais onde trabalhava. Mas, o jornalismo já não pagava decentemente, quando saí, e tinha de ter várias colaborações em media diferentes para ter um ordenado. Mas, o pior eram os dias contados de férias! Eu queria viajar mais e o tempo de vida estava a passar rápido e estava a pôr de parte todos os meus sonhos… aconteceu naturalmente fazer um site de viagens (já tinha tido dois blogs antes que nunca tiveram a mesma dedicação), quando ainda havia poucos profissionais a fazerem-no.
Foi uma aventura maravilhosa fazer o ViajeComigo.com, desde 2013, e ver no que ele se tornou: uma referência de dicas de viagens e uma marca que lança artigos diferenciados, desde gorros e golas artesanais e, agora, a edição do primeiro livro em papel: o  “Viajar Sozinha“.
Tenho muitas saudades de ter alguém com quem partilhar ideias, dos meus colegas das redações, mas tornei-me freelancer por opção e, até hoje, não me arrependi dessa minha decisão. E de, em 2015, largar as colaborações e dedicar-me a 100% à área das viagens! E pensar que a jornalista se tornou líder de viagens e já levou mais de mil viajantes a vários cantos do Mundo? Nunca imaginei isto 😉

O Viaje Comigo tem sido reconhecido com prémios importantes, como o de Melhor Blog de Viagens na BTL. O que significam para ti estas distinções? São uma validação externa do teu trabalho ou sentes que o verdadeiro prémio está noutro lugar?

Claro que os prémios são sempre uma validação do trabalho – e um deles foi o prémio do Público, o que significa que foram os leitores que elegeram. Foram prémios muito especiais e foram impulsionadores do ViajeComigo.com, porque lhe deram credibilidade e me deram ânimo para continuar. Principalmente, os prémios da BTL que vieram de pessoas que trabalham no Turismo.  E perceber que estive muitas vezes a concorrer “ao lado” de redações. E eu a fazer o trabalho sozinha. Mas saber que ajudei milhares de pessoas a viajarem já é muito gratificante também. Mas o verdadeiro prémio é sempre receber mensagens dos leitores e dizerem como os ajudei a viajar mais!

Susana Ribeiro fundou o Viage comigo

Em 2013, Susana Ribeiro lançou o “Viaje Comigo”, hoje uma referência nacional em blogs de viagens. Dois anos depois, deixou o jornalismo para se dedicar em exclusivo ao seu projeto.

Fundaste o “Mulheres em Viagem” durante a pandemia, quando o mundo parou e muitos sonhos ficaram em suspenso. Que força ou necessidade interior te levou a criar esse espaço? Foi um ato de resistência, de amor, de cura?

Eu tinha largado muita coisa em 2019, para em 2020 me tornar líder de viagens a tempo inteiro. Por isso, foi um choque muito grande, ficar sem emprego e sem perspectivas durante tanto tempo, na pandemia. Tentei lançar outros projetos mas acabavam por não ir para a frente, por causa de limitações de circulação entre concelhos etc. Foi muito desarmante e acho que, pela primeira vez na minha vida, me senti bastante… Não diria perdida… mas quase. No limite da frustração.
Curiosamente, foi daí que surgiram os workshops. Acabei por começar a dar workshops de escrita gratuitos durante a pandemia, porque todos precisávamos de desabafar. E, depois, as pessoas pediram para continuar. Hoje, tenho vários workshops ainda em funcionamento – online e às vezes presencial – que vêm desses desafios. Tenho inclusive dedicado à “Escrita de viagens”, o “Viajar Sozinha” e o “Como ser Líder de Viagens”.
Costumo dizer que sou uma pessoa entre o optimista/realista, mas quando fechamos de novo em janeiro de 2021, senti um vazio gigantesco. Não estava à espera e foi desesperante. Sei que não estava sozinha, nessa situação, porque fomos muitos os que nos vimos desprovidos do nosso sustento. Nessa altura, fui trabalhar no Algarve (com os hotéis da região) e senti-me muito sozinha. Todas as saídas eram controladas pela polícia, Tudo fechou.
E já tinha o domínio do MulheresEmViagem.pt (MEV) há muitos meses, mas foi aí que decidi dar-lhe vida. Todos os dias fazia entrevistas a mulheres de várias áreas, desde médicas, a professoras, sexólogas, astrólogas, escritoras, engenheiras etc Foram 88 entrevistas, durante o segundo confinamento, e não queria que elas ficassem “esquecidas”. Assim, foram elas a base do MEV. Quando me lembro agora dessas entrevistas e do quanto me fizeram bem… foram a minha companhia em dias muito solitários da pandemia. A entrevista era de uma hora, mas ficávamos a falar em off durante horas! Acho que todas estávamos a precisar de desabafar e de convívio.

Sendo mulher e líder de viagens, acreditas que a tua forma de liderar, mais sensível, colaborativa e intuitiva, representa também uma proposta de mudança num setor ainda tão marcado por estruturas e expectativas masculinas?

Esta é uma resposta difícil de dar. Acredito que a tua experiência, à frente de uma agência de viagens, tenha sido mais impactante do que a minha. Hoje em dia, já é um sector com muitas mulheres à frente de agências e muitas a serem líderes de viagens. Mas acredito que, independentemente de ser mulher ou não, sou uma pessoa sensível e intuitiva. Gosto de despertar curiosidade pelas culturas que visitamos e de evitar comparações, porque vimos todos de “lugares” diferentes, na vida. E não é difícil de perceber que, com 80 a 90% de mulheres viajantes nos meus grupos, é necessário que certas abordagens tenham o toque mais feminino, sim. E é por isso mesmo que senti a necessidade de escrever o “Viajar Sozinha” dirigido especialmente ao público feminino.

Costumas falar na viagem como uma forma de transformação. No teu caso, o que é que mais mudou em ti, como mulher, como ser humano, ao longo dos anos? E que tipo de transformação acreditas que a viagem pode oferecer a quem a vive com consciência?

Boa questão. É preciso, primeiro, viver-se uma vida com consciência para haver essa abertura e aceitar o que as viagens nos vão trazer. E trazem-nos tanto!! E muito que não é possível ser mensurável. As viagens são tudo na minha vida, porque me deram a possibilidade de viajar mais, de ver o mundo com outros olhos, de perceber o porquê de culturas e História diferente de cada país. De como a História é cíclica etc, do quanto não controlas, do quanto tens de largar para aproveitar melhor a viagem e o dia a dia… E quando trazes isso para a tua vida, e também começas a implementar isso na tua rotina, é uma libertação muito grande. Viver o dia a dia, como um bem precioso. Aqueles momentos não se repetem mais. Sinto-me muito grata por viver e ter um passaporte de um país onde tenho direitos, como mulher, e tenho liberdade de ir para onde bem quiser. Posso ser o que eu bem quiser. E pegar nessa gratidão e ajudar tantas mulheres que se cruzam comigo e falarmos dos nossos desafios, na vida, seja qual for a latitude onde tivermos nascido.

Ao longo destes anos, já acompanhaste centenas de mulheres em viagem e impactaste milhares através do que escreves, partilhas e ensinas. Há algum momento em que percebeste, com clareza, que o teu trabalho estava verdadeiramente a transformar a vida de outras mulheres?

É curioso perceber que aos poucos, durante estes anos, foram-se reunindo em meu redor muitas mulheres com esse intuito. Sobretudo com as que viajo, são as que privam comigo durante muitos dias. Sinto que impactamos todas, umas com as outras, e que todos os dias aprendo coisas novas e maravilhosas com elas. Tem de haver essa troca. Somos todas aprendizes e professoras umas das outras.
Sou uma pessoa muito curiosa e costumo dizer que nunca saí da idade dos porquês! Adoro conhecer as histórias de cada uma delas. Mas, respondendo-te mais directamente, penso que foi com o workshop “Viajar Sozinha” que comecei de facto a ter um feedback com frases como “mudaste a minha vida”, quando fizeram a primeira viagem a solo, apoiadas por mim. Uma frase que muito gosto foi-me enviada a dizer “começo a ganhar o gosto de viajar comigo própria”. Até me emocionei quando li! E foram essas frases que me incentivaram a fazer o livro “Viajar Sozinha”. Um livro que pretende indicar os passos para preparar as viagens a solo. E que também se transforma num guia de viagem. É uma reflexão depois da viagem!

Susana Ribeiro e o seu livro "Viajar sozinha"

Susana Ribeiro é autora do livro “Viajar Sozinha”, um guia prático e inspirador para mulheres que querem dar o primeiro passo nas viagens a solo.

Lançaste um livro recentemente. O que nos podes contar sobre ele? É uma extensão do Viaje Comigo, um manifesto pessoal, um guia para outras mulheres? Qual é a tua intenção com este livro?

Já falei um pouco acima, ehehe, mas reforço a ideia de que com tanta informação na internet, onde vão as pessoas buscar os passos para começarem a viajar sozinhas? Existem tantas razões para se viajar sozinha e é (quase) sempre algo que desperta alguns receios.
Como digo no livro: os medos não desaparecem… mas tornam-se muito mais pequenos. Principalmente quando descobrimos de onde vêm e como os podemos olhar de frente. O que nos assusta, o que podemos planear, para nos sentirmos mais seguras etc. São 224 páginas de um livro de bolso – para caber em qualquer mala – que tem muita informação e vários capítulos que ajudam a planear as viagens a solo. E também páginas de planear orçamentos, em branco para responder a reflexões, pensamentos, memórias de viagem, etc. É um livro que começou em mim, e com a minha experiência, mas agora que está nas mãos delas (das viajantes) e podem deixar lá a sua marca também. Gosto da ideia de ser um livro que nunca estará terminado, por isso ficaremos sempre juntas através de e-mail e redes sociais. Quando houver alterações ou novidades em relação a modos de viajar envio a informação para toda a gente!

Os medos não desaparecem… mas tornam-se muito mais pequenos.

E a pergunta que eu, como viajante já ouvi tantas vezes…E o amor? Como se encaixa, ou se encaixou, a vida amorosa numa rotina tão nómada e tão tua? Consideras um desafio? Inspiração?

Eu abracei esta vida mais nómada desde que me separei, em 2019. Estive unida (de facto) 15 anos e ele sempre foi a pessoa que mais me impulsionava para viajar. Separamo-nos, mas somos melhores amigos. Desde aí tem sido difícil conjugar mas acredito que aprendemos com tudo e  acredito também que um dia voltarei a ter uma rotina que me ajude a balançar essa parte da vida, que é muito necessária, como todas as outras.

Acredito que quando viajamos externamente, também o fazemos internamente. O que descobriste sobre ti própria ao longo dos anos, e que gostarias que outras mulheres descobrissem também?

Descobri que somos capazes de refazer a vida quando quisermos. As vezes que quisermos, independentemente da idade que temos. Vou fazer 50 em 2026 e já tive inúmeras profissões. Na pandemia, quando fiquei sem emprego nas viagens, fui trabalhar nas vindimas e trabalhei como formadora, geri redes sociais, ajudei na gestão de alojamentos, etc. Todos os dias temos essa possibilidade de mudar, inovar, de crescer a aprender com algo. Precisamos de alguma coragem para deixar hábitos, e até alguns vícios, mas o tempo há-de trazer isso. Não vejo aqui dourar a pílula! Claro que as vidas não são todas iguais e muitas vão estar a ler isto e a dizer que não é assim tão fácil. E é verdade: não é! Reconheço que há vidas mesmo muito embrulhadas, e que têm particularidades muito específicas, e que a mudança pode ser mais difícil. Mas algum dia temos de dar o “salto”. Podemos até dar uns passos atrás, para conseguirmos mudar de direção e escolher outro caminho, mas temos de dar um primeiro passo.
Digo para, em primeiro lugar, se rodearem de pessoas que as elevam, de pessoas que as querem ajudar. É necessário ter apoio e ser apoio de alguém, também. E que se afastem – o mais rapidamente possível – de quem as diminui e as manda para baixo. Esse é o primeiro passo e é crucial para mudarmos padrões. A nossa energia é muito valiosa e só a devemos gastar com quem de facto merece.
Isso é para a vida em geral.
Com as viagens, por exemplo, acho que pensamos sempre em fazer quilómetros, apanhar aviões etc. mas as viagens a solo podem começar com lugares perto de casa. Aos poucos há várias coisas que vão mudar: sobretudo a confiança começa a aumentar. E vão-se desmistificando alguns dos receios. Tornamo-nos mais autónomas, independentes, criativas… e com maior jogo de cintura para situações que acontecem em viagem, mas com lições que podemos adaptar ao nosso dia a dia!

Descobri que somos capazes de refazer a vida quando quisermos. As vezes que quisermos, independentemente da idade que temos.

Por fim, que mensagem deixas às mulheres que te admiram, mas que ainda têm medo de dar o primeiro passo, seja viajar sozinhas, criar um projeto, mudar de carreira ou até simplesmente escutar a sua própria voz?

É como deixar de fumar. É preciso querer!! Mas quando queremos… tudo é possível. Dá o passo em frente. Às vezes são precisos muitos passos. E, como já disse acima, alguns passos vão parecer que são para trás… Algumas quedas. Ninguém sabe bem o quanto custa ter um projeto próprio até o ter. Custa muito. Custa a tua saúde, noites sem dormir, contraturas nas costas, muitos nãos e apenas alguns sins. Meses sem salário e outros que compensam esses. Mas, no final, vale sempre a pena estares a construir algo em que acreditas. Esta vida é curta demais para a passarmos a fazer algo que não gostamos. “Ah e se eu não gostar de nada?”. Então cria. Faz tu acontecer o que ainda não foi criado. Cria o que te faz feliz e a partir daí tudo será mais fácil. Pode não te trazer o dinheiro que precisas, no imediato, mas no futuro será o que mais te completa.
Em relação às viagens, tenho de sugerir (claro!) a leitura do meu livro “Viajar Sozinha” para ganharem asas e se lançarem no Mundo e, se precisarem de maior apoio, o workshop com o mesmo nome que acompanha todos os momentos da primeira viagem a solo. Estou ali, ao lado dela, o tempo todo para dar-nos os passos juntas!

Acredito que a verdadeira transformação não tem bilhete de regresso. Viajei o mundo e atravessei tempestades internas: depressões, burnout, mudanças de direção, despedidas de projetos. Em cada um desses momentos, a viagem foi o meu espelho, o meu guia e a minha medicina. Criei agências, vendi sonhos, vivi em Bali, surfei as minhas sombras e reencontrei a minha voz. Hoje, guio experiências de regresso à tua essência através da astrologia, da mentoria e de viagens que, mais do que mostrarem o mundo, te ajudam a veres-te a ti.