Um desgosto amoroso mostrou-me quem sou
A dor que sentes agora pode vir a ser o teu maior presente.
O mito do “felizes para sempre”
Ao ver a série Sex Life, dei por mim a pensar no quão irrealista é esta ideia de amor que o cinema e a televisão nos vendem: paixões avassaladoras, finais felizes garantidos, o famoso “e viveram felizes para sempre”. Mas ninguém nos mostra o que acontece depois desse “felizes para sempre”. E, muitas vezes, ficamos a acreditar que amar é isso. Que só existe um grande amor na vida.
Mas a minha experiência mostrou-me outra realidade.
O dia em que me tornei numa mulher despedaçada
Em 2019, vivi o maior desgosto amoroso da minha vida. Mais do que um coração partido, tornei-me numa mulher partida. Senti que tudo o que me representava, como mulher, foi despedaçado.
Esse foi o ponto de partida para uma profunda jornada de auto-descoberta, auto-aceitação e cura. Um processo intenso de encarar os meus medos, limitações e inseguranças. De trazer luz às partes mais obscuras de mim, numa dolorosa viagem de morte e renascimento. Demorei tempo a deixar cair a pele antiga, a recuperar partes perdidas de mim. Mas, ao longo desse percurso transformador, renasci.
A ferida do abandono
Esse acontecimento obrigou-me a olhar para a ferida do abandono. A mulher-criança que, durante anos, nunca se sentiu a pertencer a lado algum e que carregava em si a ferida da rejeição. Durante muito tempo, usei uma armadura para me proteger, sem perceber o quão cruel estava a ser comigo mesma. Negava-me a vulnerabilidade, recusava-me a aceitar que também eu era digna de amor. Foi então preciso encarar o medo do abandono, trabalhar no meu sistema nervoso marcado por uma vinculação ansiosa, e reclamar a minha força, auto-estima e confiança pessoais.
Ferramentas de cura
Aprendi a reconhecer padrões — atraía parceiros emocionalmente indisponíveis, reflexos da minha própria incapacidade de me sentir digna de ser amada e de me entregar — e escolhi romper com esses ciclos, fazendo escolhas mais alinhadas comigo.
A astrologia foi uma peça-chave nesta jornada. Espelhou as origens da minha ferida e revelou como a minha incapacidade de me abrir ao amor estava profundamente enraizada. Aliada a ferramentas como a psicoterapia, o EMDR e as constelações familiares, consegui explorar e curar as questões mais profundas que me condicionavam.
O que é o amor afinal?
Foi nesse processo que aprendi o que é, para mim, o amor. Amor é liberdade. Minha e da outra pessoa. Para mim, amor é ser eu. Aparecer como sou. Partilhar as minhas emoções de forma aberta. Pedir ajuda. Amor é ser autêntica. E o amor não está lá fora. O amor está, antes de mais, dentro de mim.
Vivemos também com a ideia de que colocar-nos em primeiro lugar é egoísmo. Não é! Perguntaram-me uma vez: “Numa escala de 1 a 10, quanto é que te amas a ti própria?” E eu respondi que me amava, justificando com tudo o que tinha conquistado profissionalmente. A pessoa disse: “Esquece a tua vida profissional. Finge que não existe. Fica apenas com o que sobra. Quanto é que te amas a ti própria?” E eu só consegui responder: “Pois…” Não me amava. Então, como poderia aparecer inteira numa relação? Como poderia dar o meu melhor?
O capítulo que se fechou
Foi também nesse caminho que soube que aquela pessoa que tanto amei tinha seguido em frente, casado e com filhos. O que senti não foi dor nem rancor, mas medo. Medo de não voltar a sentir algo tão avassalador por mais ninguém. Porque também cresci com essa ideia de que o “amor da vida” só acontece uma vez.
Mas percebi que era amor verdadeiro porque nunca quis prendê-lo a mim. Quis, acima de tudo, a sua felicidade. Quando se ama verdadeiramente, não se quer possuir essa pessoa. Quer-se a felicidade e a realização dela acima de tudo. E, portanto, se essa pessoa quer partir, deixamo-la ir. Libertamos e ficamos em paz com isso. E acredita: voltamos a amar. Não da mesma forma, mas de outra maneira.
O novo capítulo que se abriu
Cinco anos de trabalho depois, duas semanas após uma constelação familiar sobre a minha vida amorosa — não como um milagre da constelação, mas como fruto de todo o caminho que já tinha feito — abri-me à pessoa com quem hoje partilho a minha vida.
Hoje sei que a maior dor que vivi foi também o meu maior presente: o ponto de partida para me reconectar comigo mesma, reclamar o meu valor e aprender a amar-me verdadeiramente.
À pessoa que me despedaçou, só tenho a agradecer. Por vezes, as almas gémeas entram na nossa vida apenas para nos ensinar.
É por isso que continuo a dizer: Conhece-te! Quando souberes quem és, sabes como amar e ser amada.


